Sou daquele tipo de pessoa que ama viajar e conhecer lugares novos, mas tem um canto do mundo em especial que faço questão de revisitar de tempos em tempos. Com todas as dificuldades para chegar, a Ilha de Boipeba, mais precisamente a vila de Moreré, na Bahia, ainda consegue me fisgar de volta a cada ano. Acontece ainda que, de dois anos para cá, o trajeto ficou ainda maior e mais gostoso com a abertura do Pontal do Bainema.
Para quem nunca teve a oportunidade de ir, já aviso que o trajeto não é simples – mas vale cada segundo quando chega lá. Primeiro de tudo, é preciso chegar até o ferry boat de Salvador. A partir de lá, 4 horas de um combo ônibus + lancha + trator te levam à pequena vila de 400 habitantes. Mas, para este roteiro, acrescente aí uma caminhada linda, que começa passando por um corredor de hibiscos e casinhas de caranguejos Guaiamum, e dura 3km pela comprida praia do Bainema. Ali naquela belíssima praia isolada, lugar onde tem umas poucas fazendas de côco e uma casa de vidro, está um pequeno oásis.
O Pontal do Bainema surgiu a partir de uma história de amor. E é exatamente a vibração que o lugar emana. Henrique, ou Cação para os amigos, tinha uma propriedade por ali, em sociedade com um francês, há mais de 10 anos. O sonho de jogar a vida de cidade grande para o alto e viver na ilha já existia, mas estava distante. Até que 4 anos atrás ele conheceu Mel e a linda conexão entre os dois fez acender de novo o desejo de mudar.
“Abrir um bar no Pontal era a última coisa na nossa lista”, lembra Mel. A ideia era primeiro alugar stand up para os turistas que passassem a caminho da praia de Castelhanos – um passeio lindo pelo mangue até outra ponta quase inexplorada da ilha. Alugar a casa de vidro, que mais parece uma miragem em meio à praia deserta também seria uma possibilidade. “Montamos uma mesa para a gente mesmo comer fora de casa e começaram a passar pessoas perguntando se a gente tinha um copo d’água”. Acontece que tudo é mais difícil de chegar por ali. Mesmo a água, que é usada para beber e cozinhar, é cara. “Pensamos então em vender água de coco, que é uma fartura só na região. Aí perguntavam se tinha cerveja, um tira-gosto”, conta.
Cação já cozinhava para os amigos e família. A casquinha de siri, seu prato de maior sucesso entre as pessoas queridas foi o primeiro prato a surgir. Veio então Gonçalo, músico amigo do casal, e incentivou que começassem a fazer também o ceviche, outra especialidade de Cação, além de de fato abrir o espaço como um bar. Mel buscava se encaixar em meio às mudanças. Sua trajetória era completamente diferente daquela realidade. Professora de autoCAD, um sofware usado para a elaboração de peças de desenho técnico em duas dimensões e para criação de modelos tridimensionais, ela nunca tinha aberto um maracujá na vida – que dirá tirar água de poço. A ideia do bar foi a que ela mais se identificou. “Aqui é o meu lugar. Minha sala de estar, onde recebo os amigos, onde estudo, onde eu trabalho. Tudo acontece neste 3×3 aqui”, diz Mel, com um sorriso de leveza no rosto.
Além da casa de vidro e do bar, eles construíram uma casa para morar e montaram uma linda horta que supre algumas demandas da cozinha do Pontal e deles mesmos. Por ali, temperos de todos os tipos brotam entre pés de tomate, limão cravo, maxixe, alface, rúcula, banana e, claro, muito côco. Sandrinho que toma conta do espaço e garante, junto com o casal e uma equipe ponta firme, que seja possível plantar em cima da areia. Um baita desafio que hoje eles já tiram de letra. O espaço ainda tem uma árvore central com um pequeno altar forrado de imagens de Iemanjá, além de algumas conchas.
Nos conhecemos ali mesmo. Recebendo a brisa fresca que vem do mar. Uma grande amiga que vai todos os anos a Moreré já tinha passado pelo Pontal e, numa das nossas idas, ainda em 2017, nos apaixonamos por esse recanto no Bainema. Pudera! A tal casquinha de siri de Cação é apaixonante. Vem bem servida, montada sobre uma cama farinha saborosa. O ceviche então, feiro com peixe fresco, tomates e pedaços crocantes de maça, é uma perdição. Mas eu mesma não consigo passar por lá sem beliscar uma porção de lambreta. Quem já foi à Bahia sabe: o marisco encontrado próximo das águas salobras e lamacentas do mangue é de lamber os beiços. Só uma refoga de cebola e pimenta já garante que as lambretas saltem deliciosas da cozinha.
Quem passa por ali, pode ainda provar outras delícias do cardápio. A Moqueca, nas versões vegetariana de banana com maxixe ou tradicional de peixe, saem borbulhando na travessa de barro. Além das massas e risotos com frutos do mar, reserve um espaço para a grande estrela do cardápio – na minha humilde opinião: o Polvo à la Bainema. Os pedaços macios e suculentos de polvo feitos com bastante alho e torradinhas para acompanhar. Depois de tudo isso, só mesmo as redes com vista para o mar salvam antes da caminhada de volta para casa.
Sendo ponto de passagem para quem vai conhecer a Ponta dos Castelhanos, vale lembrar que o local corre um sério risco com a especulação imobiliária. Ali em Castelhanhos, um grupo de endinheirados pretende construir um complexo turístico-imobiliário que não só acabaria com o mangue e com essa praia deserta, mas interferiria na vida da população local, na desova de tartarugas marinhas e, claro, no meio ambiente. Ainda não começou, mas vale lembrar que temos o dever de preservar e não destruir nossas naturezas e comunidades.
A praia do Bainema é frequentada ainda por pessoas que chegam de barco para se banhar nas piscinas naturais. Elas são formadas quando a maré começa a secar ou encher, numa pequena caminhada mar adentro, em frente ao Pontal do Bainema. O stand up é uma boa forma de aproveitar as águas mornas desse paraíso. Mas, para mim, nada como ficar deitada bem na beiradinha, só com a cabeça para fora da água, no melhor estilo banho-maria.
Em momentos de alta temporada, Mel e Cação organizam luaus ali mesmo no Pontal. Me lembro dos bons momentos noturnos também ali naquele único foco de luz em meio à natureza. Ao redor da fogueira, ou da bancada do bar, entoamos canções de alegria até altas da madrugada. Nem parece que caminhamos esses 3km na volta para a Vila de Moreré. Desses cantinhos para guardar na alma. Visitar e revisitar, em um brinde às amizades. Ano que vem estarei de volta.
Fotos: Gabriela Rassy
Foto destaque: Gabriel Villas-Boas
Fonte: www.hypeness.com.br