Representante regional do ACNUR fala sobre seu trabalho com ajuda humanitária

Ann Encontre é a atual representante regional da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) em Kinshasa, na República Democrática do Congo.

Ann Encontre visita o assentamento de refugiados Mulongwe, na República Democrática do Congo. Foto: ACNUR/ Georgina Goodwin

 

Ann Encontre é a atual representante regional da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) em Kinshasa, na República Democrática do Congo. Ann fez uma corajosa mudança profissional — trocou o direito corporativo e passou a trabalhar com a proteção de refugiados. Há 23 anos, integra a equipe do ACNUR, tendo trabalhado em Serra Leoa, Chade, Sudão do Sul e Suíça.

Depois de crescer no Caribe, cercada de praias de areia branca, águas turquesa e montes verdes, Ann se mudou para Genebra, Suíça, com seu marido. Formada em Direito, com vasta experiência na área, um marido carinhoso e dois filhos, ela era uma mulher jovem com uma vida estável. Mas Ann escolheu deixar essa segurança e conforto para trabalhar em zonas de guerra ajudando pessoas forçadas a se deslocar.

O ACNUR trabalha em 134 países ajudando homens, mulheres e crianças forçadas a deixar suas casas devido a guerras e perseguições. A sede da agência está localizada em Genebra, mas a maioria de seus funcionários trabalham em campo, ajudando refugiados.

Leia, abaixo, a entrevista.

ACNUR: Por que você se tornou uma trabalhadora humanitária?

Ann Encontre: Desde criança eu sonhava ser advogada. Depois da graduação na faculdade de Direito, comecei a trabalhar com planejamento imobiliário, Direito empresarial, grandes fundações e hedge funds. Eu pensava que essa era a minha paixão — até que aceitei uma oportunidade de emprego de curto prazo com o ACNUR, quando me mudei com o meu marido para Genebra.

Fiquei impressionada com a situação dos refugiados e dos solicitantes de refúgio. As violações de direitos humanos eram absolutamente inacreditáveis. Eu acompanhava o que acontecia pelas notícias. Mas realmente me afetou ver essas violações contra centenas de milhares de pessoas que não tiveram outra escolha senão fugir para salvar suas vidas.

Em 1999, quando surgiu a primeira oportunidade de trabalhar em campo, em Serra Leoa, eu sabia que tinha que ir. Eu já tinha começado a sentir a enorme satisfação em poder ajudar as pessoas, proteger suas vidas e melhorar suas condições humanas, e eu não queria ficar parada. Eu queria perseguir isso e ver aonde me levaria.

ACNUR: Você trabalhou em muitas zonas de guerra e locais remotos. Como lidou com isso?

Ann Encontre: Realmente, trabalhei muitas vezes em áreas de risco e tinha consciência de que eu era responsável pela minha própria segurança — mas também pela segurança da minha equipe, que buscava em mim liderança e coordenação. Ao mesmo tempo, eu também era muito consciente de não levar o trabalho comigo como mais uma mala quando voltava para casa. Porque eu tinha que enfrentar situações difíceis, como ataques e mortes de refugiados, perda de colegas e outros acontecimentos traumatizantes. Eu tinha que encontrar formas de lidar com tudo isso.

Em lugares como Chade e Sudão do Sul, eu plantava flores e batatas doces. A rotina diária de cuidar das flores e garantir que elas vivessem era uma espécie de válvula de escape. Também tentei praticar esportes, frequentei regularmente a missa, fazia meu cabelo aos sábados e tinha um grupo de colegas com quem conversávamos e criávamos um espaço de troca.

ACNUR: Sua carreira com o ACNUR fez com que você passasse um tempo significativo longe de sua família. Isso tem sido um desafio?

Ann Encontre: Eu tinha dois filhos pequenos, de 7 e 9 anos, quando comecei a trabalhar em locais remotos. Estava profundamente dividida — se eu conseguiria ficar longe deles e se tudo daria certo. Também enfrentei críticas de um membro da família, que achava que eu não estava cumprindo meu dever de mãe e esposa, e que eu estava abdicando da minha responsabilidade de mãe. Mas eu estava absolutamente determinada a fazer funcionar. Para cada pausa que eu tinha, havia apenas uma direção: a minha casa.

Minha filha pediu para ir ao internato, então eu organizei todos os períodos de férias com ela. Consegui aproveitar intensamente e com qualidade o tempo que passei com meus filhos. Quando se tornaram adolescentes, foi mais difícil. Eles estavam mais interessados em estar com seus amigos e eu não podia interferir neste desejo deles.

Como profissional de ajuda humanitária feminina, vi como as mulheres são julgadas de maneira diferente quando trabalham em zonas de guerra ou em lugares onde não podem levar seus filhos. Invariavelmente, você encontra funcionários da própria organização que te perguntam: “Você está sozinha? Onde está sua família? O seu marido deixou você vir aqui sozinha? ”. Eu enfrentei essas perguntas o tempo todo sobre minhas responsabilidades como mãe.

Eu realmente tive que me esforçar para lidar com tudo isso. Minha família aceitou minhas escolhas e se adaptou à minha rotina profissional. Porque meu posto de trabalho não permitia que minha família estivesse comigo. Eu não quero estar no meu leito de morte e me arrepender por não ter seguido este caminho.

ACNUR: Você conheceu alguma pessoa deslocada que marcou você?

Ann Encontre: Eu lembro que cheguei a Serra Leoa em uma sexta-feira de manhã. A chuva tinha caído e o sol acabava de nascer. O cenário me lembrou muito o Caribe. Era tão bonito, mas, ao mesmo tempo, você podia ver os resultados da guerra com os refugiados da Libéria. Eu tive que atender pessoas que tinham sido gravemente feridas, pessoas que haviam sido mutiladas.

Mas havia uma senhora cujo nome era Jackie. Ela tinha o talento para costurar, mas também era uma mobilizadora de grupos femininos. Ela havia começado uma pequena cooperativa, onde mulheres criavam galinhas ou coelhos, outras faziam uniformes e carpintaria, enquanto outras coletavam mel de abelhas. Jackie estava ajudando as mulheres a se ajudarem e, depois de cerca de oito meses, elas passaram a manter suas famílias e seus filhos na escola. Fiquei muito ligada a ela por causa de sua motivação, sua força e sua energia, apesar de todas as adversidades.

ACNUR: Qual é a coisa mais gratificante no seu trabalho?

Ann Encontre: É ajudar as pessoas a ter uma vida melhor. Acredito que não há dinheiro que pague isto. Não há nada mais satisfatório em termos de emprego. Eu não mudaria isso por nada no mundo e eu não faria de nenhuma outra forma.

ACNUR: O que te mantém acordada à noite?

Ann Encontre: Desde setembro de 2016, trabalho na República Democrática do Congo (RDC) e a única coisa que me incomoda é a insegurança. A insegurança que pode surgir a qualquer momento e afetar populações tanto nos países vizinhos quanto na própria RDC. Eu me preocupo constantemente antes de dormir com o que vai acontecer durante a noite, particularmente em áreas de fronteira que podem fazer com que mais pessoas fujam de suas casas. Mais mães fugindo com seus filhos na calada da noite sem serem capazes de saber para onde estão indo e o que farão em seguida.

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